Foi súbita, uma espécie de pressão que subia em direção ao topo da cabeça, como se quisesse explodir a tampa.
Demorou um bocado de tempo para começar a aliviar.
Minha esposa me “obrigou” a procurar um neurologista logo na manhã seguinte.
O médico me pediu exames de ressonância magnética da cabeça e do pescoço.
Quando levei os resultados ele abriu o envelope, leu, me olhou e disse:
“Tenho uma boa notícia e uma notícia ruim para você” – e ficou me olhando com ar de suspense...
Eu disse a ele que desse logo a boa notícia e em seguida a ruim.
“Você não tem nada na cabeça!” ( claro que foi no bom sentido )
“Mas sua cervical “foi para o brejo”.
Perguntei se eu tinha “esperança de sobrevivência” e em seguida, como ele balançou positivamente a cabeça, perguntei o que eu deveria fazer.
Ele me disse que eu precisaria buscar apoio de um fisioterapeuta pois o problema na cervical não poderia ser “resolvido”, mas poderia ser “suavizado” com re-educação postural.
Na consulta com o fisioterapeuta me dei conta do que significa “mudar comportamentos”.
O fisioterapeuta começou com um interrogatório:
“Como você se senta?”, “Como você dorme”, “Como você trabalha em sua mesa?” e outras perguntas igualmente embaraçosas.
Confesso que aquelas foram das perguntas mais difíceis que já me fizeram.
Tente responder a estas perguntas...
O que ele procurava era identificar o que eu fazia “repetidamente e de modo inconsciente” e que precisaria ser modificado, se eu quisesse “suavizar” minha dor.
E mais, ao me fazer parar para pensar nestes movimentos inconscientes ele visava me conduzir a um processo de conscientização do efeito que estes movimentos provocaram ao longo da minha vida.
E ainda mais: me deixar claro que “eu repeti inconscientemente estes movimentos por tanto tempo, a ponto de gerar lesões na cervical, e portanto, a obtenção de melhorias não ocorreria no curto prazo e exigiria muita disciplina, porque a tendência seria apresentar recaídas com a repetição dos comportamentos inconscientes”.
Eu melhorei muito, nunca mais tive uma crise como aquela, mas são muitas as vezes em que me flagro – e chamo isso de “momentos de consciência” – fazendo movimentos errados. Aliás, para ser sincero, eu não me flagro coisa alguma, eu sinto é alguma dor começando e então ajo de modo consciente mudando o movimento.
Você certamente não deve estar perguntando “por que este cara está escrevendo sobre a sua cervical”.
Certamente fez imediatamente a conexão entre esta história real com o que ocorre na vida real dentro das empresas, com executivos / gestores (não só executivos / gestores, mas prefiro focar neles) que “insistem em repetir comportamentos inadequados, apesar das conseqüências”.
O problema é que a “dor” nestes casos não chega primeiro neles. Chega primeiro nos seus subordinados, depois nos resultados do setor, depois na empresa, e finalmente (algumas vezes, nem sempre) “neles”.
É como construir um castelo de dor que ao final inevitavelmente desabará, matando seu construtor.
Como fazer para que estes gestores modifiquem comportamentos inadequados “antes da dor chegar neles”?
Eis aí o grande desafio. E só há um caminho - na verdade um processo - composto por 3 estágios:
1. Conscientização: a pessoa precisa genuinamente “concluir” que de fato ela está se comportamento da forma como está se comportando, e que isso está provocando impactos que não são aqueles esperados pela empresa. Muitas pessoas não aceitam que estão se comportamento da forma como estão de fato se comportando e preferem acreditar que estão se comportando como elas “gostariam” de se comportar. Enquanto não houver a conscientização a respeito da situação atual e da situação desejada, qualquer esforço será puro desperdício. Lembre-se: “As pessoas valorizam muito mais as suas próprias conclusões do que aquilo que lhes é dito”.
2. Desejo de Mudança: apenas a conscientização a respeito da necessidade de mudanças não basta, pois ela apenas representa a abertura para o início de uma longa jornada. É preciso que a pessoa de fato apresente o “desejo de mudar” seu comportamento. Este desejo de mudanças costuma ficar evidente quando a pessoa “pede ajuda” para a mudança. Lembre-se: “As pessoas valorizam muito mais aquilo que elas pedem do que o que lhes é oferecido livremente”. Neste estágio é possível levar a pessoa a concluir “que dor ela está construindo e que ao final desabará nela”.
3. Disciplina e Determinação: ter a consciência da necessidade de mudança e ter o desejo de mudar são passos fundamentais, mas não são suficientes para garantir o “processo de mudanças”. Como o próprio nome já diz - “processo de mudanças” - estamos falando de um “processo”, algo de “longo prazo”, que é “doloroso” porque mexe em comportamentos estabilizados e repetidos inconscientemente ao longo de toda uma vida. Durante a longa – e dolorosa – jornada de mudanças, várias serão as “recaídas”. Só com muita “disciplina” e com muita “determinação” será possível esperar que mudanças ocorram.
Simples de explicar, mas ... difícil, doloroso e demorado. E mais: só a pessoa pode fazê-lo!!
Gostaria de ouvir sua experiência em situações semelhantes.
Um forte abraço
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